“Acessibilindígena”, demarcando as universidades, sem capacitismo: Uma entrevista com Siana Guajajara
Minha breve entrevista com Siana Guajajara aconteceu justamente no momento da leitura e votação do estatuto da União Plurinacional dos Estudantes Indígenas (UPEIndígenas), durante o IX Encontro Nacional dos Estudantes Indígenas, que teve sede na Universidade Estadual de Campinas entre os dias 26 e 29 de julho de 2022. Essa votação aconteceu no último dia do encontro, que tinha como tema central “Ancestralidade e Contemporaneidade”.
Esse encontro reuniu estudantes indígenas do país todo, contabilizando aproximadamente mil e setecentas pessoas, de diferentes povos, e contou com uma programação bastante diversa, recheada de rodas de conversa, oficinas de comunicação, oficinas de antropologia, fóruns do meio ambiente e sustentabilidade, mesas redondas, desfiles de moda, peças de teatros e apresentações culturais. Esse encontro contou com a presença de Sônia Guajajara, Daniel Munduruku, Cristine Takuá, lideranças de diferentes aldeias, e até com a presença de celebridades simpatizantes da causa indígena como DJ Alok, e de artistas indígenas como Djuena Tikuna, DJ Erik Terena, Bro’s MC’s, Michel Baré, Célia Xakriabá, Sabázinho dos Teclados e Leandro Tupã Guarani, ademais de muitos intelectuais indígenas de variados segmentos acadêmicos.
Os estudantes que marcaram presença no encontro se alojaram no Ginásio Multidisciplinar da Unicamp (ver fig.1), e lá contaram com suporte de locais de higiene e alimentação gratuita no Restaurante Universitário, que estava de portas abertas para receber a todos os inscritos neste grande evento. Eu, como antiga estudante da Unicamp (onde fiz minha primeira graduação), nunca havia encontrado esse espaço universitário tão colorido, diverso e múltiplo.
Sou Siana Guajajara, do povo Guajajara. Sou natural do Araguaia (Tocantins), mas cresci no Maranhão. Tenho paralisia cerebral por conta de falta de oxigênio na incubadora.
Vou dizer como estou me entendendo hoje neste meio, nestas questões todas, em relação ao movimento indígena: este ano eu comecei a me engajar, levantando essa causa de indígenas com deficiência, porque no ATL eu percebi essa falta, essa coisa de, “peraí, tá faltando a gente aqui!”, e foi quando eu me levantei nas minhas redes sociais mesmo e falei, “olha, a minha deficiência não me faz menos indígena!”. Porque de tanto eu estar escutando, “ah, ainda existe indígena com deficiência?”, “ah, realmente existe indígena com deficiência?”, “ah, não mataram vocês?”… A gente sabe que existe uma história por trás, a gente sabe que existe tudo isso. Mas isso tudo precisa ser ressignificado, porque não existe só a Siana Guajajara com deficiência, existem outros parentes também. E como eu comecei? Não comecei sozinha nesse movimento… fui conversando com outros parentes indígenas de outras etnias, e eles começaram a falar: “Bora! Que a gente também está cansado!”.
A gente começou esse movimento nas nossas redes sociais, e hoje se chama “Acessibilindígena: a nossa deficiência, a minha deficiência, não me faz menos indígena”.
Hoje estou aqui no ENEI, como estudante indígena, mas pelo que observei, sou a primeira indígena acadêmica com deficiência a participar do IX ENEI, pelo menos com essa minha ótica, e a gente tá vindo de pouquinho a pouquinho. A gente também está aqui e a gente precisa falar.
Hoje, agora à tarde, está havendo essa reunião, da escolha da chapa para a União Plurinacional dos Estudantes Indígenas que está sendo lançada neste exato momento. E ali eu pautei: “Tá, vocês estão levantando uma nova chapa? Ok! Para representar os estudantes indígenas? Mas, tem alguma pauta que vai ressaltar os estudantes indígenas com deficiência?”. Eles não pensaram nessa questão… Portanto, seria só mais uma chapa qualquer, digamos assim. Se for para fazer o diferencial, então que venha abrangendo a todos, e não só aquele povo de sempre. E foi por isso que a gente se levantou.
Somos um coletivo indígena
que trabalha em parceria, contando com a presença de:
- Ynathari Queens Ampak (@ynathariampak, atriz e cientista);
- Kanhu (@kanhuraka), Regilanne Guajajara (@regilanne_guajajara, psicóloga e mãe atípica);
- Fernanda Mi'saw (@mihsaw, artista, fotógrafa e comunicadora);
- Sol Terena (@sol_terena)...
... E contamos com a colaboração de Milene Correia (@meenhasaventuras), artista não-indígena que se dedica à arte com temática inclusiva. Eu fui a idealizadora e fundadora do projeto “Coletivo Acessibilindígena” e as outras pessoas do coletivo são co-fundadoras dele. Temos quem nos apoia e, para fazer as divulgações, utilizamos a minha página pessoal no Instagram onde tratamos sobre estas questões através de tirinhas. A linguagem das tirinhas, que funde arte verbal e arte plástica, permite acessar de maneira lúdica a representatividade, e ela tem se mostrado muito importante na interação com o público. É uma linguagem mais acessível e sensível.
E a gente está lá, representando cada pessoa que vai chegando no projeto. Porque a gente sabe que falar sobre pessoas com deficiência é pesado para a sociedade; e quando a gente vai falar do indígena, aí já é mais complicado ainda.
Então, nós quisemos trazer com firmeza a nossa luta, mas trazer com aquele ar de: “Nossa, eles estão falando de capacitismo! Mas eles estão falando de uma forma diferente!”, para ver se a sociedade se educa, porque a sociedade até agora não se educou com relação a isso.
Eu agradeço o espaço que vocês estão me dando, porque está sendo muito importante para falar desta questão toda!
É uma responsabilidade muito grande! Quando me encontrei hoje com Regilanne, ela me disse assim: “Olha, eu entendo a sua dor. Mas eu entendo essa dor como mãe, não como pessoa em si”1.
E eu agradeço muito por este espaço, realmente, porque quando a gente luta pelo espaço em qualquer lugar como indígena, a gente se preocupa em ser diferente. E realmente, que a gente possa ser diferente! E por isso fiz o meu questionamento quando estava ali embaixo: “Vem cá, é um novo estatuto, mas a meu ver, está fazendo como outros por aí?”.
Então, se a gente quer ser diferente, vamos ser a voz realmente do povo indígena? Do povo indígena que vai representar todo o povo, toda a base? A gente vai aprender agora a olhar para o indígena e perceber que a deficiência dele não faz dele menos indígena!
Muito obrigada por este espaço!
Figura 2. Momento em que toda a nova chapa da União Plurinacional dos Estudantes Indígenas é convidada para subir ao palco, na Arena da Unicamp, e Siana Guajajara sobe como representante da Diretoria dos Estudantes Indígenas com Deficiência.
O capacitismo é um problema social bastante velado e até desconhecido por muitos, que tem um impacto tão negativo e tão agressivo quanto o racismo, o machismo, a homofobia, a transfobia, e tantas outras formas de violência. Ele consiste na prática discriminatória contra pessoas com deficiências (sejam quais forem – de ordem física e/ou psíquica), no julgamento, perseguição e fragilização dos corpos que não atendem ao modelo padrão, considerando-os anormais, enfermos, improdutivos, incapazes. A própria prática da ignorância das pessoas com deficiência nos diferentes ambientes cotidianos é capacitismo, assim com julgar o que determinada pessoa com deficiência pode ou não pode fazer, diante de percepções preconcebidas a respeito de suas condições físicas e/ou psíquicas/intelectuais.
Figura 3. Termo de posse da nova chapa da União Plurinacional dos Estudantes Indígenas. Nele, é possível observar o nome de Siana Guajajara acrescentado à caneta, ocupando o cargo de representante da Diretoria dos Estudantes Indígenas com Deficiência.
Crônica escrita em 06 de agosto de 2022
Publicada em 24 de fevereiro de 2023
Por Anita Lino [2], neste Blog
[1] Regilanne Guajajara é psicóloga e mãe atípica, seu filho tem paralisia cerebral. Ela foi uma das grandes responsáveis pelas articulações com a presidência da Comissão Eleitoral da UPEIndígenas, e por isso Siana cita seu nome logo ao início desta sua fala pública.
[2] Anita Lino é linguista, mestra e doutora em Antropologia Social, e musicista (compositora e multi-instrumentista). É escoliótica, tem placas de titânio na coluna, sendo pessoa com deficiência e ativista pela causa anticapacitista. É também indigenista e ambientalista. Atualmente, realiza pesquisa de Pós-Doutorado na região amazônica (entre o Acre e o sul do Amazonas) juntamente com indígenas com deficiência, estando vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Acre (PPGAC / UFAC). Contato: anita.lino.arte@gmail.com. Perfil no Instagram: @anita.lino.




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